sábado, 3 de janeiro de 2009

Sortilégios de sexta...

Sexta-feira é um dia terrível no trânsito de Florianópolis, principalmente se você tiver que cruzar a ponte às 19 horas para ir para o continente. E mais ainda se, antes disso, você tiver que ir até a praia. Congestionamentos monstruosos.
Acordei atrasada e saí correndo. Tinha que passar cedo na feira e comprar alface para o pessoal que ia viajar colocar no sanduíche. Tinha que comprar pão de sanduíche e os frios. Também precisava comprar garrafas de água pequenas pra viagem.
Desci no terminal de ônibus do centro e fui à feira. Comprei as verduras e fui para o escritório, um quilômetro a pé.
Trabalhei a manhã toda e, ao meio-dia, achei que seria bom adiantar as coisas e comprar o que faltava. Fui ao mercado, mais um quilômetro. Comprei mais do que o necessário e, mais um quilômetro, com um monte de sacolas.
No meio da tarde liguei para o meu irmão pra dizer que eu estava saindo pra pegar o carro, e ele disse que meu sobrinho estava sozinho em casa, ardendo em febre. Saí antes do horário que estava combinado de eu sair, preocupada. Fui pegar as sacolas de compras. Aí me dei conta de que eram muitas, e eu precisava ir até o outro lado do centro. Cerca de 2 quilômetros. Saí do prédio e pensei em tomar um táxi, mas não havia nenhum no ponto. Fui andando.
Só achei um táxi a meio caminho, e daí fiquei constrangida de pegá-lo pra andar apenas um quilômetro.
Passei reto, bufando, vermelha como um pimentão sob o sol escaldante, e me desmanchando num suor absurdo que colava a roupa transparente no corpo.
O motorista ficou olhando. Dei meia dúzia de passos. Minhas mãos estava cortadas pelas alças das sacolas. Pensei melhor e voltei. Perguntei ao motorista "se importa de fazer uma corrida curta, bem curtinha?" e ele respondeu sorrindo "se a gorjeta for boa...".
Sorri um sorriso sem graça, entrei no táxi e disse onde queria ir.
O motorista, um garotão de uns 25 ou 30 anos, não sei ao certo. Sotaque paulista. Fiquei olhando pela janela, tentando me reorganizar mentalmente pra não perder o horário. Teria ainda um compromisso às 20h, no continente, num lugar onde eu nunca havia ido.
Então aconteceu o diálogo:
- Calorão, num é?
- É.
- Saindo cedo do trabalho hoje?
- Sim.
- Descansar... é bom.
- Vou ver meu sobrinho que está doente e sozinho em casa...
- Sobrinho?! E filhos, você tem?
- Não...
- É casada?
- Não...
- Tão bonita e solteira?
- Pois é...
- Por que, o que há de errado?
- Tem gente que é solteira por opção, sabia?
- Que desperdício...
- É ali, ó, nesse prédio, pode parar...
- Eu ajudo com as sacolas (fazendo menção de abrir a porta)...
- Não é necessário (estendendo a mão com o dinheiro)...
Ele abre a porta, insistindo. Eu salto rápido.
- Pode deixar, não é realmente necessário, basta me alcançá-las.
Ele as alcança e, em seguida, desce do carro.
- O troco...
- Pode deixar assim...
Abro a bolsa, tentando encontrar o controle do portão. Não encontro. Mexo, remexo. Sacolas todas numa mão. Eu arfando. Ele olhando.
De repente... ploft... tudo se esparrama pelo chão.
Fico ainda mais vermelha, praticamente roxa e, enquanto ele junta tudo rindo, acho o controle, abro o portão, murmuro um obrigado enquanto pego as sacolas da mão dele e saio correndo, aliviada.
Misturado aos meus passos rápidos pelo corredor ainda ouço um "bom fim de semana...".

Nenhum comentário:

Postar um comentário